segunda-feira, 4 de maio de 2009

Santoro chega ao Ralações

Este blogue andou parado, enquanto pensava numa maneira de torná-lo mais interessante, mais amplo, e mais variado. Penso fazer isso transformando o Ralações em um blogue coletivo, com gente que tem algo a dizer sobre o tema. O primeiro é o Maurício Santoro, jornalista, cientista , dono de um belo texto, e, desde a semana passada, gestor público, que também tem outro blogue e que me ajudará na mudança (talvez até de endereço, aguradem notícias).

Em breve, aqui, o primeiro post deste blogue em sua versão coletiva.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Chávez ganhou, mas por quê?

A inclusão de governadores e prefeitos na emenda que permite a reeleição ilimitada, a confiança no sistema eleitoral, uma mensagem mais clara da propaganda governista e a pressão presidencial sobre funcionários públicos e beneficiários de programa sociais explicam a vitória do presidente Hugo Chávez e o alto comparecimento no referendo de domingo, segundo institutos de pesquisa que previram o resultado.Ontem, com 99,75% das urnas apuradas, o "sim" tinha 54,86% dos votos, contra 45,13%. O nível de abstenção estava em 30,08%, um índice considerado baixo para a Venezuela, onde o voto é facultativo.

Esse aí acima é o Fabiano maisonnave, na Folha, hoje, com uma bela peça de jornalismo sobre as avaliações em tornod a vitória de Chávez nor eferendo que lhe permitirá releger-se sem limites. Tem mais:

Para o diretor do Datanálisis, outra diferença crucial em relação a 2007 foi a inclusão de prefeitos e governadores como beneficiários da reeleição ilimitada. Na primeira tentativa, Chávez se opôs a estender o mecanismo aos Executivos regionais "sob o risco de criar caudilhos"."Os governadores e prefeitos estavam mais motivados para ajudar na mobilização. Em 2007, estavam bastante apáticos porque não lhes interessava a proposta", disse León.Campos acha que os governadores e prefeitos "tiveram um papel", mas muito menor do que a mobilização em torno de Chávez. "Esse era o tema."O analista do Consultores 30.11 também discorda do peso da máquina estatal. Para ele, a oposição foi mais beneficiada porque teve o apoio explícito de meios de comunicação privados. "A oposição foi favorecida por um desequilíbrio informativo. O Estado sempre dispõe de recursos, isso é certo, mas, no caso venezuelano, a oposição tem os meios privados, o que não é pouco."

A matéria inteira, AQUI.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Brasil e EUA - hegemonias


Da minha coluna, no Valor:


Um incipiente e calado ressentimento contra o Brasil cresce em alguns países vizinhos, especialmente na Argentina. O peso da economia e a expansão dos interesses brasileiros na região agora se somam à situação relativamente mais confortável do país na crise econômica mundial. E, também, a um fator ainda pouco notado no próprio Brasil: a consolidação de um acordo tácito com o governo dos Estados Unidos, que vem levando o Brasil a ocupar o papel de potência sub-hegemônica na América do Sul. Acumulam-se indícios de que a administração democrata nos Estados Unidos manterá, com o governo brasileiro, o bom nível de consultas políticas estabelecido pelo governo George W. Bush com Brasília.


O interesse pelo Brasil extrapola a Casa Branca: logo após o Carnaval, vem ao país o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, John Kerry, o democrata derrotado por Bush nas eleições de 2004, que chegou a ser cotado para secretário de Estado de Obama. A comissão que Kerry dirige é um dos postos-chave na política externa americana e as prioridades anunciadas por ele são, como se esperaria, o antiterrorismo e a superação da crise econômica mundial. A vinda ao Brasil é bom sinal, mostra o país no radar dos formuladores de política externa do Congresso americano. O vice de Kerry é o republicano Richard Lugar, autor de um projeto de cooperação entre Brasil e EUA em biocombustíveis e um dos maiores entusiastas do etanol no país.

(fonte da imagem: AQUI)
O resto, AQUI.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A nada ridícula jogada de Amorim

Diplomacia. como as vinganças, é um prato que se deve experimentar com frieza. Os tempos da diplomacia, como gostava de lembrar o ex-ministro Celso Amorim, são mais extensos. Por isso, qualquer avaliação feita agora, no calor da hora, sobre os resultados da viagem do ministro Celso Amorim ao Oriente Médio têm o vício da estabanação.

É compreensível que ex-diplomatas com extensa contribuição para as relações externas brasileiras e intensa militãncia partidária façam caretas para o desembaraço de Amorim. No governo FHC reinava a avaliação de que o Brasil, por não dispor dos recursos de poder das grandes potências, deveria posicionar-se em um tabuleiro já montado por esses grandes países.

Poderia, em alguns casos, até arrancar algum proveito, interferindo no jogo pontualmente, como na espetacular vitória na reunião de Doha, na OMC, em que o país arrancou um acordo sobre medicamentos e comércio favorável à produção de genéricos. (Note-se que o maior impulso a essa batalha veio do ministério da Saúde, então nas mãos de José Serra).

No governo Lula, há a pretensão de uma "nova geografia comercial", que na pratica coincide com os interesses de grande parte das empresas brasileiras com projetos expansionistas, e há uma convicção de que o país tem condições de ter influência decisiva em decisões do sistema internacional, desde que se garanta um mecanismo multilateral de descisões. Daí a importãncia conferida a ganhar um assento no Conselho de Segurança a ONU, a criação do G-20 na OMC (com países que se opõem as propostas dos EUA e da Europa para comércio agrícola) e a ativa participação no G-20 financeiro (o grupo de maiores economias mundiais que ganhou significância com a desmoralização dos grandes centros capitalistas nessa crise financeira mundial).

Não é o caso de fazer uma defesa da política externa do governo. Mas não há como não se notar que Lula é um interlocutor respeitado na esfera internacional, com trânsito fácil até entre governantes conservadores como Sarkozy, na França, Bush, nos EUA, e Uribe, na Colômbia. Rival evidente do venezuelano Chávez na disputa por hegemonia nas esquerdas sul-americanas, é tratado com respeito (pelo menos publicamente) pelo suposto adversário, que não o confonta abertamente. Do ponto de vista da diplomacia, que dá valor as manifestações simbólicas e às reuniões _ às vezes mais que aos resultados práticos _ Lula é um êxito diplomático. Só não v~e quem olha para ele com o fígado.

A visita ao Oriente Médio, além de contribuir para firmar a imagem de país importante, com peso político no mundo, abre portas ao país na região. Israel não pode se dar ao luxo de desprezar os contatos com um país ativo politicamente no sistema das Nações Unidas, com grande e influente comundiade judaica, capaz, apesar da franca simpatia com a causa palestina, de defender posições como a condenação ao terrorismo do Hamas e a pressão moral sobre o Irã. Os países árabes serão gratos pelo ativismo brasileiro em favor do estado palestino.

Claro, tudo isso tem de ser matizado pela pequena presença real do Brasil na região, e pela relativa insignificância do país no pesado jogo geopolítico que se trava naqueles territórios cheios de petróleo, com água escassa, na fronteira em que se batem interesses árabes laicos, o islamismo crescente e os interesses das potências ocidentais.

O custo orçamentário da viagem de morim é inferior ao que se gasta anualmente com viagens "de trabalho" de parlamentares aos EUA (das quais nunca se vê um relatório que seja), para ficar só em um exemplo de desperdício de verbas que nunca foi criticado pelos atuais inimigos da política externa lulista.

Em qualquer hipótese, as teses do ex-embaixador Lampreia, de que os mandatários da região ficaram de saco cheio com as visitas de Amorim, ou de que essas viagens beiraram o ridículo, não ganharam muito eco na cobertura da imprensa internacional nem foram acompanhadas de alguma evidência.

Se o Brasil for chamado a opinar, ou se qualquer consequência política, comercial ou financeira vier dessa iniciativa, o Itamaraty, o Planalto e o país lucram. (algo que só será visto no futuro nem tão próximo),

Se nada acontecer, tudo que o governo brasileiro terá perdido é uma viagem.


***

Sobre a imagem do Brasil no resto do mundo, sugiro a leitura desse artigo AQUI, esse AQUI

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Quem não bate palmas para Obama


O Desmond Tutu ainda está gritando de alegria nas páginas, incrédulo com a eleição de um "filho do Quênia" para a presidência dos EUA, e já começa a ferver a desconfiança contra Barack Hussein Obama no Oriente Médio. A razão do descontentamento tem nome: Emanuel Rahm, único auxliar escolhido até agora pelo novo presidente, e para um dos mais importantes postos do poder em Washington, o de chefe de gabinete do Presidente.

Especula-se que, com a escolha, Obama atraiu para si o grupo político de Bill e Hillary Clinton, a quem Rahm apóia, e recrutou, assim, um dos políticos democratas mais duros e combativos, que será útil para consolidar a necessária maioria em seu próprio partido, no poderoso Congresso americano.
Só que no pacote veio o Rahm israelense e militante, filho de um ex-membro de grupo sionista autor de atentados contra palestinos. Lobista ativo em favor da paz no Oriente Médio, desde que seguindo os interesses de Israel. Os árabes e palestinos não gostaram nada disso. E a esquerda que comemora a eleição do Obama até no Brasil terá de lidar com essa novidade.

Mais sobre isso, AQUI e, especialmente, AQUI. Em inglês, está ainda mais interessante, AQUI e AQUI.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Bolivia, a todo gás

Depois de um tempo sem entrar nesas Ralações, voltou, claro, com o imbroglio na Bolívia.

Da minha coluna no Valor, dia 1º de setembro:

Entre os raciocínios tortos que impedem o país de discutir seriamente um projeto brasileiro para o continente sul-americano está o argumento de que é absurdo preocupar-se com a pobreza da Bolívia ou do Paraguai, quando há tantos pobres no Piauí, ou na periferia de São Paulo. Esse tipo de raciocínio não leva em conta que a insatisfação dos pobres piauienses e paulistas, e suas conseqüências para a criminalidade e para a política, podem ser tratados pelas instituições do Brasil mesmo. No Paraguai e na Bolívia, as crises estão fora do alcance do Estado brasileiro, e nem por isso deixam de nos afetar. O que acontece, hoje, na Bolívia, merece atenção, e muita.

Quando escrevi isso, o pessoal ainda não estava ocupando e vandalizando as instalações de gás que abastecem Brasil e Argentina. Continuo, AQUI.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Pátria Grande

Para você que sempre quis saber o que pensa a esquerda boliviana. À esquerda de Evo Morales, digo. AQUI.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Enquanto isso, na Bolívia...

Parece que um Protórrenes andou pela Bolívia, e andou grampeando... o tio Sam. AQUI.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Não é ele; é o outro


"El estilo es el hombre" dijo Bufón. En el caso de Chávez, es el hombre, el político y el jefe de Estado. Para sus críticos es un estilo pendenciero, pero para la inmensa mayoría de la población que lo apoya es la expresión de una personalidad franca y altiva. Lo que para sus malquerientes es una expresión de populismo, para sus seguidores es cercanía y contacto directo con la población. Lo que para la oposición son rasgos de autoritarismo, para sus partidarios es un liderazgo firme con objetivos claros.

El contacto directo y permanente con la población explica buena parte de su popularidad. Chávez ha realizado varios centenares de reuniones semanales en las regiones más apartadas del país. Convoca a las autoridades locales y departamentales, así como a representantes de las comunidades para que en diálogos directos con altos funcionarios del gobierno nacional, que siempre incluyen varios ministros, se discutan los problemas más acuciantes de cada región, y se encuentren soluciones ágiles con el compromiso de todos los niveles y ámbitos del Estado.

Estas reuniones son transmitidas íntegramente y en directo a todo el país por los canales oficiales de radio y televisión; a pesar de que generalmente se pueden prolongar por más de seis horas, su audiencia es amplia.

De igual manera, Chavez dialoga semanalmente sobre los problemas nacionales y regionales con los oyentes de decenas de pequeñas emisoras de radio que transmiten en pequeñas poblaciones campesinas y en barrios pobres de las grandes ciudades. Su presencia a lo largo y ancho del país es ubicua y continua. Transmite así al público la sensación de una gran preocupación por los problemas cotidianos y menudos de todos los habitantes, sin importar la modestia de su condición social. Y este reconocimiento se refleja en las encuestas de popularidad.

De otra parte, su mandato se ha visto animado y sobresaltado por enfrentamientos directos del presidente con figuras de la oposición, con magistrados de las Altas Cortes, con voceros de organizaciones no gubernamentales y, como se sabe, con presidentes de países vecinos.

En todos los casos, Chávez ha preferido la sinceridad y la franqueza a la diplomacia sinuosa y evasiva propia de otros altos mandatarios. Chávez no rehúye la confrontación; por el contrario, casi se diría que la busca cuando la considera necesaria para defender la obra de su gobierno, para lograr los objetivos de sus políticas o para develar lo que él considera son las inconsistencias o los intereses ocultos de sus adversarios.

Por eso de igual manera llama a una emisora de radio local a cualquier hora del día para refutar a un opositor cuando considera que lo está calumniando; reta a un magistrado de la Corte Suprema de Justicia a realizar un debate frente a frente en la Comisión de Acusaciones del Congreso para dilucidar una supuesta presión indebida del presidente sobre el magistrado; o confronta simultáneamente a presidentes en una reunión de la OEA.

Para la oposición, estos son excesos que cuestionan la majestad de un primer mandatario, crean un ambiente inadecuado de confrontación, acorralan a los disidentes y deterioran las relaciones exteriores del país. Para los seguidores de Chávez es una forma lícita de debatir abiertamente y sin tapujos posiciones políticas o ideológicas de cara al público, de darle transparencia a la acción gubernamental y de defender abiertamente los intereses nacionales.

La audacia y el carácter ejecutivo que Chávez le ha dado a su gestión es calificado por algunos como un sesgo autoritario de su personalidad y de su estilo. Es muy frecuente que salte por encima de las jerarquías institucionales y dé órdenes a segundos mandos subordinados sin información ni consulta previa a sus superiores.

Esto ha sido muy frecuente: comandantes de batallones reciben en ocasiones órdenes directas del jefe del Estado sin que el comandante de su respectiva División se entere de ello; también los llama de la misma manera para pedirles cuentas de su gestión. Chávez tuvo la inédita audacia de impulsar una reforma constitucional para hacer posible su propia reelección, en un país donde un temor atávico a la perpetuación del poder y un rechazo histórico a las dictaduras ha visto en la reelección un riesgo para la democracia, hasta tal punto que su Constitución la prohibía de manera explícita. Pero, haciendo a un lado esta tradición, en medio de las críticas de sus opositores, y seguro del apoyo popular, Chávez obtuvo un segundo mandato.

A pesar de estas y otras muchas audacias, Chávez nunca ha podido ser acusado de haber violado la ley o de haber abusado del poder.

Chávez es una persona de convicciones muy firmes, dispuesto a nadar contra la corriente para defenderlas. Tiene, a no dudarlo, algo de iluminado, convencido interiormente de su misión irrevocable sobre la tierra. Esto le infunde un tesón y una fuerza de voluntad sin límites, que sus adversarios califican de tozudez y terquedad. Pero esta fuerza interior le permite un ritmo endiablado de trabajo que agota y deja por el camino al más resistente de sus asesores cercanos.

*****


Só de broma, como dizem os vizinhos, excluí alguns trechos do texto original e troquei por Chávez o nome de Uribe, que constava originalmente nesse texto do analista político Alfredo Rangel. (É, é ele mesmo, Uribe, na foto acima, com o Chávez). Uma análise da popularidade do presidente da Colômbia, com informações raras vezes vistas na imprensa brasileira.



Claro, Uribe, que, como mostra o texto de Rangel, tem traços populistas e autoritários geralmente condenados quando encontrados no venezuelano, não andou nacionalizando empresas ou recusando renovação de licenças para emissoras de rádio e tv. Mas é acusado, pela esquerda, de outros pecaditos, embora até os críticos tenham de rceonhecer que sua gestão é um sucesso econômico _ algo que Chávez, apesar de todo empenho, está bem longe de conseguir na Venezuela.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Chávez quase leva Evo à morte. Sem querer.

Impressionante. Poderíamos estar, agora, discutindo o futuro conturbado da Bolívia sem Evo Morales. Coisas etranhas acontecem naquele país andino. E não vi nada em nenhum dos jornalões sobre isso AQUI.
Detalhes, com repercussão do acidente para Chávez, AQUI. E há quem culpe o péssimo clima na Bolívia, AQUI.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Goebbels, Amorim e o blame game

Conhecendo o ministro Celso Amorim, é difícil acreditar que ele teve algum lapso lingüístico quando comparou os países ricos aos nazistas, que, seguindo a recomendação de Goebbels, repetiam uma mentira até que todos acreditavam ser verdade.

A citação de Goebbels, numa negociação em que os EUA são representados por uma descendente de sobreviventes do Holocausto, arrebitou mais narizes que uma eventual flautulência de algum diplomata em apuros com um filé tartar mal digerido. Ficou chato, dizem. Mas o Peter Mendelson, negociador dos europeus, já baixou a bola, minimizou o troço. Seria mesmo ridículo dizer que a rodada Dogha iria fracassar por causa de uma declaração politicamente incorreta do chanceler brasileiro.

Pode ser uma escorregada do ministro, mas eu arriscaria outra tese. Acho que Amorim convocou os nazistas ao se ver acuado e ameaçado na posição de negociador representante dos países em desenvolvimento. Tentou se credenciar como intérprete dos radicais, chamou de volta a atenção para si (estava perdendo público e o apoio das bases), e continua reinando no palco de Doha.

Está assim a situação em Genebra, onde algumas dezenas de ministros tentam um acordo para garantir o êxito da Rodada Doha, a rodada de liberalização comercial iniciada no Catar, em 2001:

.europeus e americanos tem problemas de política interna e dizem não poder abrir mais os mercados para produtos agrícolas nem baixar subsídios que distorcem o comércio, sem receber algum presente dos países em desenvolvimento (abertura de mercados para produtos industriais);

.os países em desenvolvimento afirmam que, com os altos preços agrícolas internacionais, os subsídios nem estão sendo tão usados, e os cortes previstos na OMC serão bem menores do que se imagina;

.além disso, não vêem por que reduzir as próprias barreiras tarifárias contra manufaturas importadas, numa hora em que tentam reativar seus setores industriais e lutam contra moedas valorizadas que ameaçam sua competitividade.

Ao lado dessa briga principal, pipocam mil atritos que, em caso de atolamento das discussões, podem fazer fracassar a reunião de ministros _ assim como a reunião ministerial de Cancún implodiu por causa dos Temas de Cingapura, coisa estranha que ninguém esperava.

Houve avanços técnicos, nos textos para um futuro acordo, mas as diferenças ainda são grandes. E a Índia deixou de ser o único país em desenvolvimento que manifestava abertamente o desconforto com as concessões que vinha fazendo o Brasil (os brasileiros avaliaram com o setor privado e concluíram que daria para reduzir mais as barreiras contra importações de manufaturas, em troca dos ganhos em agricultura e outros itens na negociação). Outros países começaram a ocupar a cena.

Do lado dos ricos, a França começou a deixar bem claro que não faria concessão nenhuma, enquanto os EYA mostram-se incapazes até de aprovar um acordo comercial com a Colômbia, único aliado incondicional na América do Sul. O clima, em genebra, é de blame game, jogo de culpas, a turma já apontando o dedo pros outros e acusando-os de responsável por um iminente fracasso na rodada Doha.

Amorim, que vinha desempenhando o papel de radical conversável, moderado entre os emergentes, começou, nesse cenário difícil, a ver países sul-americanos ameaçando tomar o palco. Argentina e Venezuela começaram a aparecer no noticiário anunciando a intenção de melar tudo, se a coisa não andar como gostariam.

Até agora, as principais decisões sobre os rumos da rodada Doha têm sido tomadas principalmente por um grupo de quatro interlocutores: EUA, União Européia, Brasil e Índia, teoricamente capazes de fazer um balanço das forças em disputa Se uns países emergentes radicalizarem, de um lado, alinhando-se com a Índia, e outros (México, Colômbia, Costa Rica e assemlehados) se alinharem aos ricos, o Brasil perderia relevância, como o cara boa-praça que se dá com todos mas não ameaça ninguém, no fim aceita o que decidirem.

Foi aí que o Amorim botou o Goebbels para fora.

Posso estar sendo benevolente com o chanceler. Mas que ele firmou um ponto, firmou, e garantiu as manchetes das agências de notícias, com essa coisa de botar nazista para fazer uma ponta nessa novela da OMC.

Os radicais de Evo Morales

Aí você acha que o presidente da Bolívia é um radical de extrema esquerda, nacionalista e anti-mercado.



Precisava contar para os esquerdistas, nacionalistas anti-mercado bolivianos, que me mandaram o seguinte e-mail:



La Paz, 20 jul. (Hora 25).- Este lunes a las 18:30 se presenta en la Federación de Trabajadores de la Prensa de La Paz, el libro “El Poder de la Nacionalización” del periodista Mirko Órgaz García que describe la trama de la falsa naciolización del gobierno de Evo Morales y la venta de gas a Chile.
Estarán presentes en el acto de presentación el Sindicato de Trabajadores de Huanuni, la Central Obrera Departamental de Oruro, el Comité Cívico de Camiri, representantes de la Universidad Pública de El Alto (UPEA), del distrito 4 y 6 de la ciudad de El Alto y las federaciones universitarias locales de de Cochabamba, Oruro y Potosí. Están invitados al evento, el ing. Enrique Mariaca, el Dr. Justo Zapata, el dirigente minero Jaime Solares, que se reunirán en los salones de la federación de la prensa paceña, principal auspiciador del evento.
El libro recupera la historia de las nacionalizaciones en el mundo, América Latina y describe el proceso de las dos nacionalizaciones en Bolivia, probando que la emisión del D.S. 28701 de 'nacionalización', simplemente fue la aplicación de la Ley 3058 aprobada el año 2005, garantizando de esta manera el negocio a favor de las transnacionales.
Mirko Orgáz escribió el año 2002 'La Guerra del gas', anticipándose a la gesta heroica del pueblo alteño el año 2003, cuyo saldo fue de 67 muertos y más de 500 heridos.




Informações sobre o Mirko, AQUI, AQUI e AQUI.

domingo, 20 de julho de 2008

A ministra que não o foi

Perdão leitores, por não ter atualizado o blogue: a ministra abaixo, pelo jeito, teve de "tirar da reta". E o motivo foi a decisão de Lugo de nomear um político tradicional, do partido Liberal, para Itaipu, quando a ministra queria alguém da esquerda.

Isso só me consolida a impressão que deixei registrada na coluna, no Valor, AQUI. Lugo será um presidente moderado, vai fazer pressão sobre o Brasil mas terá um governo bem mais ortodoxo do que se imagina. Ninguém chega a bispo chutando portas. Ainda que ele esteja criando encrenca à pampa com os fiéis.

A coluna mereceu uma correção. Tomei uma liberdade poética de falar do moço que serve cafezinho nas reuniões de diretoria, e fui devidamente espinafrado por um jornalista do ABC Color, jornal que move intensa campanha contra os atuais contratos de Itaipu. Eu deveria ter falado da sala do Conselho, que fica em plena barragem, e não da diretoria, que, para ter o cafezinho servido a paraguaios e brasileiros, teria de contratar um servente de moto...

sexta-feira, 13 de junho de 2008

A ministra sem medo do que vem por aí


De surpresa, o presidente recém-eleito do Paraguai nomeou, para o ministério de Relações Exteriores, uma acadêmica, a historiadora e engenheira agrônoma Milda Rivarola. É essa senhora aí ao lado, de imponentes 1,80m, social-democrata, que assume com a tarefa de dar substãncia à briga de Fernando Lugo por mais dinheiro de Itaipu ao Paraguai. Já falou que usará seus talentos de historiadora para se contrapor às teses brasileiras contra mudar as tarifas de Itaipu.

Ela está sob observação da esquerda, que tem desconfianças das credenciais da nova ministra. A pressão sobre ela só contribui para obrigá-la a mostrar que não pretende aliviar nas conversas com o Brasil.

Segundo a prática dos governos de coalizão, ministérios que mexem com dinheiro foram para a mão dos conservadores, como o ministério da Agricultura, que ficou com um membro do centro-direitista Partido Liberal. Um sinal de que Lugo terá no gabinete gente bem situada para brecar arroubos desapropriatórios na reforma agrária que prometeu. Os brasilguaios devem estar mais esperançosos.
Interessantes mesmo foram as palavras da nova ministra, minutos depois de nomeada, para a rádio Primero de Marzo, segundo o Estadão:
"Eu nunca quis fazer parte do aparato estatal. Para os que vêm do mundo acadêmico ou do setor privado, tomar essa decisão é algo difícil. Mas não pude tirar o meu da reta em um momento tão emblemático para o Paraguai"

O grifo aí em cima é meu. Não encontrei a declaração nos sites em espanhol, mas, se o redator do Estadão foi fiel às palavras da ministra, a nova chanceler vem trazendo todo um novo colorido à linguagem diplomática do Cone Sul.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A corrida dos que não foram

Era novembro do ano passado, e a histeria sobre a corrida armamentista detonada pela Venezuela chegava ao nível da epilepsia intelectual, com artigos tremelicantes lançando olhos para todas as direções, menos para os fatos. Eu escrevi AQUI que era uma balela essa história toda. Voltei depois ao assunto, lá no Sítio do Sérgio Leo. E volto agora, só para aproveitar o exemplo e recomendar aos leitores cuidado com a profusão de analistas de análise pronta que anda vicejando nesse campo das relações externas.

É da Venezuela, do El nacional, que vem o relato sobre uma pesquisa de um instituto independente da Suécia, sobre o aumento, real, dos gastos com armas no continente. O estudo despreza a tese de corrida armamentista, e dá outras razões para as compras de equipamento militar, entre elas a que se estabeleceu, após passada a histeria: as Forças Armadas, no continente, estão mal equipadas e cheias de trecos obsoletos. Mas deixa os suecos falarem:

"Las compras parecen haber sido motivadas fundamentalmente por los esfuerzos para reemplazar o modernizar el material, con el objetivo de mantener la capacidad existente, responder a amenazas predominantemente de seguridad interior, fortalecer vínculos con gobiernos proveedores, aumentar la capacidad de la industria nacional armamentista o fortalecer la imagen regional o internacional"

Sim, os suecos falam em espanhol, eu avisei que era matéria do El Nacional, da Venezuela. O resto, AQUI.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O novo chefe das FARC

"La designación de 'Cano' como comandante seguramente fue una decisión de 'Marulanda'. Así, en un primer momento, su autoridad y el acatamiento dentro de las Farc estarán basados en el hecho de haber sido ungido por el mítico líder. Y fue escogido por duro, no por blando. "

Esse é Alfredo Rangel Suarez, um lúcido analista da cena política colombiana, para quem é um engano pensar que a debilidade das Forças Armadas Revoluciobnárias da Colômbia vai levar a guerrilha a buscar maior negociação. Com a morte de Manuel Marulanda, o mítico líder das farc, seu sucessor não deixa de ser uma piada pronta, já que é fato que as FARC entraram pelo Cano, Alfonso Cano. Tido como mais político e negociador, Cano é um falcão, diz Rangel. Vêm aí sabotagem e terrorismo, prevê ele, AQUI.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Dirceu atropelou o Itamaraty

O Ricardo Balthazar, no Valor, deu um furo que eu gostaria de ter dado. (em tempos de escândalos futebolísticos com travestis, cabe um aviso: furo, em jargão jornalístico, é material exclusivo, calma lá).
Com documentos dos arquivos dos EUA, mostra como, ao contr´pario do que se afirma por aí, o governo Lula tentou desde o início uma aproximação com o govverno Bush, e dá detalhes da participação de José Dirceu, que chegou a dar sinais inversos aos do Itamaraty para as autoridades norte-americanas. Falo disso lá no Sítio do Sergio Leo, AQUI.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A declaração extraída à bala


O ministro da Defesa, Nélson Jobim, participou de uma audiência pública, de três horas, e deu uma entrevista coletiva, de duas horas nesta semana, falando da estratégia de defesa preparada pelo governo. Falou para os parlamentares sobre os cenários de defesa e citou a hipótese de invasão da Amazônia. Foi o mote para que repórteres, na coletiva, insistissem com perguntas sobre o temor do governo em relação a uma possível invasão das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, os guerrilheiros das Farc, assunto que nem de longe fez parte da longa e detalhada explanação de Jobim sobre seus planos para as Forças Armadas.

Jobim explicou que não se tratava de prevenção contra nenhuma ameaça em particular, e que não estava se referindo às Farc. Não agradou, os jornalistas queriam declaração sobre esse tema quente. Já na saída, depois de ter se esquivado do assunto com a obstinação de um soldado de infantaria, foi abordado por mais um repórter, que insistiu: "mas ministro, precisamos saber, como as Forças Armadas vão receber as Farc se elas invadirem o Brasil? Com cara de enfado (saco cheio, no jargão militar), Jobim cedeu:

"À bala. Tá respondido".

Manchete de página em um jornal no dia seguinte: "Jobim diz que Brasil receberia as Farc à bala". E citava as informações que Jobim deu sobre a proteção militar às fronteiras amazônicas, dando a impressão que ele se referia à proteção contra os guerrilheiros. No outro dia, outro jornal incorporou-se ao factóide: o assessor de Lula, Marco Aurélio Garcia, "minimizou" as declarações de Jobim, dizia a notícia.

Essa hipertrofia do fato praticada no jornalismo contemporâneo já me rendeu um post, em meu outro blogue. Minha impressão é de que, cada vez mais, o noticiário sobre certos assuntos deveria vir acompanhado de um adendo, com o contexto das declarações das autoridades. Se não for por outro motivo, por pena dos historiadores do futuro.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O tamborete de Chávez

Eu matutava sobre o porquê de o Chávez não ter nunca mais falado do ambicionado Banco do Sul, planejado para reunir Argentina, Venezuela, Bolívia, Brasil e companhia. Chegou então ao meu e-mail esse informa do site Notícias do Planalto:

O banco da Alternativa Bolivariana para a América (Alba) entrará em funcionamento a partir do próximo dia 25. O anúncio foi feito pelo ministro venezuelano de Indústria Básica e Mineração, Rodolfo Sanz, durante reunião da Comissão de Mesas Técnicas da Alba, realizada no último final de semana em Caracas. A Alba é um instrumento de integração firmado entre Bolívia, Cuba, Nicarágua, República Dominicana e Venezuela.
O bloco não visa apenas relações comerciais, mas também, ações que reduzam os contrastes sociais na América Latina. De acordo com Sanz, os primeiros projetos a serem financiados pelo banco serão nas áreas de telecomunicações, agricultura e indústria de alimentos e medicamentos.
Já estão previstas a criação de cinco empresas da Alba, chamadas de gran-nacionais, e dez projetos de caráter social.Sanz destacou a criação da empresa na área de telecomunicações que irá atuar nos cinco países. Segundo o ministro, a empresa já está quase pronta e servirá para se contrapor a um dos principais monopólios que sustenta o capitalismo. A próxima reunião da Alba acontecerá na capital de Cuba, Havana, e definirá a composição da diretoria do banco.

Chávez tem um problema, em seus esforços para financiar ações e investimentos de governos aliados. Essas ações pegam mal pacas, na opinião pública venezuelana, que vê a enorme carência de infra-estrutura no país, e gostaria de ver todo o dinherio dos petrodólares venezuelanos gasto no país. No auge das pressões de Chávez pelo Banco do Sul, com Argentina e Bolívia, de início, me disseram que a idéia era uma maneira encontrada por Chávez de encaminhar esses petrodólares, mas sob a capa de uma instituição financeira, sediada na venezuela, com prestígio de banco multilateral.

A geladeira em que foi posto o Banco do Sul e a celeridade com que se fez esse Banco da Alba me dá forte impressão de que a tese acima é verdadeira.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Ainda as FARC

Não adianta mudar de assunto, essa é, hoje, a mais emergente questão para a integração sul-americana, uma das prioridades deste blogue; portanto, vamos falar mais uma vez de FARC.



Vamis, disse eu? É melhor deixar falar quem entende muito bem do assunto, o professor Alfredo Rangel, analista que é simpático ao governo, mas é bom analista, e sério. Em artigo na página dele AQUI, ele conta que as FARC perderam 30% dos combatentes (de18 mil a cerca de 12 mil), muitos por deserção; perdeu aliados entre os camponeses, viram cair em 40% suas receitas com as ligações no narcotráfico e sequestros _ estes últimos se reduziram em 92 %, de 998 a 75 .

O número de munciípios com ataques da Farc caiu 40%, com a expulsão deles de áreas estratégicas e o corte de sua saída para o Sul. Com a perda territorial, caiu também a capacidade de operação: os ataques a forças do governo diminuiram quase à metade, de 399 a 214; atentados contra a infra-estutrua também oram cortados em 50%; ataques a povoados encolheram, de 39 em 2006 para apenas um em 2007. Estão de moral baixa, sem comunicações fluidas, desarticulados, sem presença urbana.

Nesse cenário, diz o professor Rangel, quanto mais tarde as FARC negociarem, menor a chance de conseguiram alguma coisa.

Uribe pode ser tentado a descartar qualquer acordo com as Farc, na expectativa de dizimá-las. Em qualquer hipótese, faz sentido a decisão do Exército brasilerio em reforçar o controle das fronteiras. Não há dúvida que eles serão empurrados para a floresta, para essas bandas e as equatorianas e venezuelanas.

, casi la mitad. Los retenes ilegales pasaron de 278 a 37, un 86 por ciento menos. Sus atentados contra la infraestructura económica bajaron a menos de la mitad, sus ataques a poblaciones descendieron de 39 a 1. Y no es por falta de ganas, sino por falta de fuerza.